8. ARTES E ESPETCULOS 28.8.13

1. ARTE - O POP PS ALIANA...
2. CINEMA  UMA GOROTA, UMA CIDADE
3. CINEMA  SERIA TRISTE SE NO FOSSE CMICO
4. LIVROS  A REPBLICA QUE NO SE PROCLAMOU
5. MEMRIA  PROSA CINEMATOGRFICA
6. DESIGN  ARTEFATOS INTELECTUAIS
7. VEJA RECOMENDA
8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
9. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BATATA QUENTE

1. ARTE - O POP PS ALIANA...
...e disse ''sim"  arte do incio do sculo XX e at anterior. O concubinato se converteu em casamento formal, na grande retrospectiva de Roy Lichtenstein no Centro Georges Pompidou.
MRIO SABINO, DE PARIS

     Voc est lendo esta reportagem? Impressionante. Voc faz parte de uma minoria bastante reduzida dentro do universo de leitores de VEJA. Se acabar de ler este pargrafo, pertencer a uma frao ainda menor. E, se chegar ao fim, na pgina 115, deveria ganhar da revista um ms de assinatura grtis. Arte  assunto pouco valorizado, na proporo inversa dos seus preos. No s porque a maioria das pessoas seja ignorante a respeito dela, mas porque no tem a menor importncia na vida delas, especialmente no Brasil, onde os acervos de boas pinturas e esculturas so to escassos quanto a honestidade dos polticos. Mas no se trata de um problema  se  mesmo um problema  exclusivamente brasileiro. Mesmo na Frana, Itlia, Inglaterra e Alemanha, a arte passou ao terceiro plano, ainda que visitas a museus estejam nos currculos escolares. Decerto grandes mostras atraem muita gente, do pas e de fora dele, com filas que desafiam as pernas e a pacincia. A tese deste reprter, no entanto,  que boa parte sente menos interesse no que vai ver do que a obrigao de cumprir a tabela cultural ou a preocupao em fugir do calor ou do frio excessivos ao ar livre. Uma vez l dentro, as pessoas passam pelas obras como pela catraca do metr. No se encheu de ler? A sua viso no est cansada por causa deste fundo preto com letras brancas? Ento, vire a pgina, por favor.

     O que o prembulo l de trs tem a ver com a retrospectiva do artista americano Roy Lichtenstein, em cartaz no Centro Georges Pompidou, em Paris? Assim como o autor desta reportagem, Lichtenstein precisava tentar chamar ateno para o seu trabalho. Como jovem pintor no incio da dcada de 60, ele experimentava a sensao de que todos os caminhos haviam sido percorridos na pintura e na escultura, principalmente no que se refere aos temas. A estrada da transgresso tambm j havia sido trilhada pelos "ismos" do sculo XX, com a exposio de mictrio, roda de bicicleta, a imagem da Monalisa com bigode e a de um cachimbo com a frase "Isto no  um cachimbo" embaixo. O que fazer? Ao folhear revistas de histrias em quadrinhos, Lichtenstein teve uma ideia: se a indstria cultural, com os seus meios de reproduo de imagens, havia ocupado um bom espao da pintura, ele usaria os produtos dessa indstria, desprezados como lixo, com o sinal invertido. A ttica conquistaria os crticos, cairia no gosto dos compradores e seria uma maneira de comentar, por meio da arte, os tempos que corriam em desabalada carreira, como se dizia, em direo  massificao da informao e  industrializao dos sentimentos. 
     As duas frases anteriores podem ser resumidas assim: Lichtenstein decidiu transpor para as galerias, por meio de lpis e pincis, quadrinhos das revistas vendidas nas bancas. No as histrias inteiras,  claro, mas uma e outra cena que lhe parecesse mais sugestiva das suas intenes. Era original, embora dentro da moldura de um movimento que se esboara na Inglaterra, nos anos 50, de apropriao de assuntos populares  da o nome "pop", que agruparia, no terreno frtil americano, alm de Lichtenstein, Jasper Johns, Andy Warhol e Robert Rauschenberg, para ficar no Quarteto Fantstico. 
     Na centena de obras expostas no Pompidou, a mais divertida  Look Mickey, de 1961, a tela pioneira, cujo balo do Donald contm um manifesto. "Fisguei um grande!", diz o pato ao rato, segurando firme uma vara de pescar. Sim, o peixe  voc. Os outros destaques so The Ring, Drowning Girl, Crying Girl, Whaam e Nudes with Beach Ball. Para reproduzir as cores chapadas dos quadrinhos, ele usou de muita matemtica na dosagem de cada leo, antes de se render  tinta acrlica, uma novidade na dcada de 60. O efeito era obtido mais facilmente. 
     Fica evidente, nessa retrospectiva, que o movimento pop no representou uma ruptura com a arte que o precedeu. Foi uma continuao mais debochada do impressionismo, do fauvismo e do cubismo. Lichtenstein, em especial. Ele reinterpreta Monet, Matisse, Picasso e faz referncia ao longnquo japons Hokusai, aquele das ondas, e a chineses do sculo X. Enfim, o que era percebido como concubinato agora  casamento formal, no tem jeito. O artista morreu em 1997, um ms antes de completar 74 anos. Considerava a sua pintura clssica, e clssicas eram as suas inclinaes. Ele at gostava de mulheres, veja s. Parabns, voc chegou ao fim. 


2. CINEMA  UMA GOROTA, UMA CIDADE
Isso  tudo de que o diretor Noah Baumbach precisa para fazer de FrancEs Ha, com Greta Gerwig, um triunfo.

     Francs tem 27 anos e ps um monte de energia nas coisas que so importantes para ela. H tempo ela  substituta numa companhia de dana e acha que logo mais  no pode demorar muito  entrar para o grupo principal, mas nada de a coregrafa lhe dar a boa notcia. Adora a amiga Sophie, que a adora tambm; mas elas no mais podero morar juntas, porque Sophie vai se mudar para a casa do namorado. E l se vai Frances, salva pelo gongo por dois rapazes que a hospedam provisoriamente no apartamento deles. Frances, que nasceu em Sacramento, na Califrnia,  tambm uma nova-iorquina dedicada: sorve o que pode da efervescncia da cidade e quer pertencer a ela. Mas como, se todo esse movimento em sua vida gera zero de deslocamento? Superficialmente, Frances Ha (Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz, aparenta ter muito em comum com a srie Girls  garota de 20 e poucos anos tenta achar um rumo mas se v vencida a cada nova investida. Superficialmente, s: Frances Ha  o que Girls poderia ser se narcisismo e pretenso no fossem os nicos sentimentos genunos da srie da atriz Lena Dunham. No filme dirigido por Noah Baumbach, de A Lula e a Baleia, e escrito a quatro mos com sua estrela, Greta Gerwig, h, em contraste, alegria verdadeira: as coisas no vo bem, mas Francs irradia calor mesmo quando est meio desesperada. 
     Uma sequncia, em especial, ilustra as qualidades singulares da protagonista, ao mesmo tempo em que parte o corao de qualquer espectador que a essa altura j se tenha afeioado a ela: meio como que um desafio  sua derrota generalizada, Frances gasta o dinheiro que no tem em um fim de semana em Paris. Atrapalhada com o fuso, toma um sonfero quando j  quase manh. Acorda no fim da tarde, e no dia seguinte vai embora, tendo passado suas poucas horas ali sozinha  mas teima em no ceder  decepo. Outra viagem, esta para Sacramento,  mais consoladora: os pais de Frances (interpretados pelos da atriz) no so usinas de neurose, como de praxe; e a visita  um bem-vindo respiro para ela. 
     Rodado em um preto e branco rico, embalado por uma trilha que obviamente diz muito aos dois autores do filme (da msica de Os Incompreendidos, de Francois Truffaut, a Modern Love, de David Bowie) e com um ar de improviso que s o mais rigoroso processo de deliberao  capaz de produzir, Frances Ha (o "Ha" s ser explicado na ltima cena, e  uma linda surpresa)  um triunfo em vrias frentes. Demonstra, por exemplo, que um certo tipo de cinema que  dado como moribundo pode ter ainda um grande futuro nas mos de pessoas talentosas e dispostas a trabalhar duro no que fazem. Ilustra melhor do que qualquer curso as razes que unem a nouvelle vague ao Woody Allen de Manhattan. Prova que, mesmo quando os personagens parecem familiares, no h esteretipo que no possa ser aniquilado pela observao honesta e realista. E anuncia em Greta Gerwig uma atriz especial: Baumbach, que est enamorado dela em mais de um sentido, finalmente exprime aqui o que tantos diretores (como o prprio Allen, em Para Roma, com Amor] viam de irresistvel nela, mas no haviam conseguido transmitir. 
ISABELA BOSCOV


3. CINEMA  SERIA TRISTE SE NO FOSSE CMICO
Em Sem Dor, sem Ganho, o diretor Michael Bay, de Transformers, surpreende: narra com verve uma histria de estupidez delirante ocorrida em Miami na dcada de 90.

     Em meados dos anos 1990, em Miami, trs sujeitos muito bombados bolaram um plano de cretinice delirante: sequestrar e encher de sopapos um ricao da sua academia de ginstica at que ele passasse a casa, o barco, o carro e as contas bancrias para eles  e da solt-lo, achando que ficaria tudo por isso mesmo. No  que o personal trainer Daniel Lugo (Mark Wahlberg), o ex-presidirio evanglico Paul Doyle (Dwayne Johnson) e seu amigo com disfuno ertil Adrian Doorbal (Anthony Mackie) fossem particularmente violentos ou nefastos.  verdade que, quando o esquema comeou a degringolar, eles se viram fazendo coisas horrveis. Mas s o que queriam era viver um pouquinho do sonho americano. Ou a sua verso idiota do sonho americano: mulheres com silicone nos seios, manses pr-fabricadas em condomnios, carros com motorzo, tempo para deixar os bceps e peitorais estourando de to inchados. Queriam, enfim, viver a vida como se ela fosse um filme de Michael Bay. 
     Mas espere: Sem Dor, sem Ganho (Pain & Gain, Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz no pas,  de Michael Bay  o cineasta que em filmes como Bad Boys, Armageddon e Transformers vende e enaltece essas obsesses com estridncia vulgar. E que aqui parte para uma canalhice to assumida e extrema que os sinais acabam se invertendo: dirigindo com um vigor e uma verve que pela primeira vez em sua carreira parecem genunos e no sintticos, Bay faz de Sem Dor, sem Ganho uma histria de sofreguido e desespero. Lugo, o crebro  maneira de dizer  do empreendimento, interpretado com competncia por Wahlberg,  quem impele os amigos e os instila com sua frustrao: mesmo atravs de sua estultice espessa ele percebe que o ricao grosseiro que pretende roubar (Tony Shalhoub) no  melhor do que ele; no  mais instrudo, mais preparado nem mais inteligente. Deu mais sorte e sujou mais as mos, apenas. O produtor de filmes pornogrficos que ele escolhe como vtima seguinte, ento, esse  srdido. Por que ele e os companheiros no deveriam arrancar desses sujeitos o que de outra forma no poderiam ter, raciocina Lugo (de novo, "raciocina"  maneira de dizer). 
     H muito humor em Sem Dor, sem Ganho, e de uma variedade ambgua  ambos os atributos, o humor e a ambiguidade, at aqui insuspeitos no diretor. Nem somando seus esforos Lugo. Doyle e Doorbal so capazes de ter um pensamento com p ou cabea, e sua burrice  cmica. Mas sua histria  tambm, no fundo, triste e consideravelmente assustadora: uma espcie de conto moral sobre o encontro catastrfico da ambio e do ressentimento com a ignorncia e a estupidez. 
ISABELA BOSCOV


4. LIVROS  A REPBLICA QUE NO SE PROCLAMOU
Em 1889, o jornalista Laurentino Gomes faz a crnica de uma das mais conturbadas viradas da histria brasileira.

     A Repblica foi proclamada, no Brasil, pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro de 1889. Assim se costuma ensinar nos bancos escolares. Mas, naquele dia, no se ouviu de Deodoro a palavra "repblica". Um manifesto do recm-institudo governo provisrio assinado pelo marechal limitava-se a decretar o fim da monarquia. Veterano da Guerra do Paraguai, Deodoro da Fonseca foi cortejado pelos republicanos  militares e civis  porque inspirava respeito no Exrcito. Tornara-se uma espcie de porta-voz dos descontentamentos que os militares tinham com o poder civil. No consta, porm, que ele tenha alimentado qualquer fervor republicano antes que os acidentes da poltica o sagrassem o primeiro presidente do pas. No nascedouro, a Repblica esteve cercada de ambiguidades, indecises, confuses  e tambm de violncia e autoritarismo: Deodoro fecharia o Congresso, e seu sucessor, Floriano Peixoto, seria ainda mais autocrtico. Esse momento conturbado e complicado da histria brasileira  esclarecido de forma exemplar  pelo jornalista Laurentino Gomes, ex-editor executivo de VEJA, em 1889 (Globo Livros; 416 pginas; 44,90 reais).  a terceira de uma srie de obras dedicadas a narrar momentos cruciais do Brasil. Os dois livros anteriores  1808 e 1822  venderam juntos cerca de 1,5 milho de exemplares. 
     "Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiado contriburam para o fim da Monarquia e a Proclamao da Repblica no Brasil", diz o subttulo. Na vasta galeria de personagens habilmente manipulada pelo autor, trs, portanto, so os protagonistas. Deodoro  o marechal vaidoso, e dom Pedro II o imperador que, por inrcia, deixou a monarquia se exaurir. O "professor injustiado"  o tenente-coronel Benjamin Constant, que inoculou o fervor republicano em seus alunos da Escola Militar mas, depois de uma querela mesquinha com Deodoro da Fonseca, morreu, em 1891, amargurado com os rumos do regime que ajudara a fundar. Laurentino Gomes traa com vigor a paisagem poltica e social do perodo: examina, entre outros temas, a influncia do positivismo sobre os republicanos, a excluso da maioria dos brasileiros das eleies e a crise econmica do Encilhamento. Mas no perde o olho para detalhes anedticos: no 15 de Novembro, Deodoro da Fonseca estava combalido por uma crise de dispneia. Por precauo, conta Laurentino Gomes, o marechal liderou a revolta de cima de um cavalo manso, Mas o quadro de Henrique Bernardelli que ilustra esta pgina mostra uma montaria fogosa. E o marechal ergue o quepe, como quem d vivas  Repblica  que, a rigor, ele no chegou a proclamar. 
JERNIMO TEIXEIRA


5. MEMRIA  PROSA CINEMATOGRFICA
     Elmore Leonard escrevia muito e rpido. Era um autor de policiais e thrillers, livros para divertir o leitor  mas no se confundia com o tpico best-seller barato. A economia de sua prosa e seus dilogos speros mas vibrantes de coloquialidade fazem dele um estilista do pulp. Admirado por escritores como Martin Amis, Leonard foi valorizado, sobretudo, pelos cineastas: a naturalidade com que seus personagens agem e  sobretudo  falam parece pronta para os roteiros. O escritor americano morreu aos 87 anos, em sua casa nos arredores de Detroit, na tera-feira 20, em consequncia de um acidente vascular cerebral que sofrera no ms passado. 
     Leonard comeou a escrever fico nos anos 50, quando ainda trabalhava em uma agncia de publicidade. Seus primeiros contos e romances foram westerns  incluindo Hombre, levado ao cinema em 1967, com Paul Newman no papel principal. Mas o gnero que ele dominaria como um mestre seria o policial. Os personagens tpicos de seus romances so bandidos, figuras marginais de cidades como Atlantic City ou Miami. "Os caras maus so os caras divertidos. As nicas pessoas com quem tenho problemas so as chamadas normais. A linguagem delas no  muito colorida", disse em uma entrevista. No se interprete "colorida" como sinnimo de "exuberante" ou "rebuscada": Leonard buscava a vitalidade da linguagem das ruas e detestava qualquer tipo de afetao. Na srie de conselhos que ele deixou sobre como escrever bem, avulta a ambio de uma prosa precisa e enxuta: "Nunca use outro verbo alm de 'dizer' para construir dilogos". Adaptado inmeras vezes, Leonard nem sempre ficava feliz com o resultado na tela. Gostou, por exemplo, de O Nome do Jogo, com John Travolta, mas no de sua sequncia, O Outro Nome do Jogo. Nos ltimos anos, entusiasmou-se com a srie Justified, baseada em um conto seu. Chegou a escrever um novo romance, Raylan, com o mesmo personagem, para ser aproveitado na srie.


6. DESIGN  ARTEFATOS INTELECTUAIS
Ao misturar cincia, tecnologia e uma boa dose de romantismo, o francs Mathieu Lehanneur assume a vanguarda do design industrial contemporneo.
MRIO MENDES

     No af de apresentar ao pblico o ltimo grito do design internacional, jornalistas especializados na rea chegaram a classificar o francs Mathieu Lehanneur como "o novo Philippe Starck"  aquele das cadeiras transparentes e do espremedor de frutas que lembra um foguete espacial, itens onipresentes em ambientes modernosamente descolados desde os anos 80. Nada mais equivocado. As semelhanas entre eles cessam no fato de ambos terem o mesmo ofcio e a mesma nacionalidade. Lehanneur, de 39 anos, dispensa o papel de vedete da decorao. Produz, sim, artefatos da moda, mas em grande escala:  o maior expoente da atual vanguarda do design industrial. Seus objetos e utenslios procuram responder a preocupaes contemporneas, sobretudo aquelas relacionadas  preservao do meio ambiente,  cincia e  tecnologia,  sade e ao bem-estar. Sim, essa pose tecnoecolgica soa um tanto quanto pretensiosa. Mas uma conversa com o designer  que fez uma rpida passagem por So Paulo para participar de um evento  pe tudo em termos mais pedestres. 
     "Em meu trabalho, procuro entender o ser humano e, para isso, so necessrios certos conhecimentos de fisiologia, biologia e, claro, psicologia", diz. No que ele tenha estudado tais disciplinas, mas as parcerias que costuma estabelecer  com a indstria farmacutica, mdicos e inventores  o deixam mais prximo da cincia do que das artes visuais. Em um de seus primeiros compromissos profissionais, logo depois de terminar a universidade de desenho industrial, Lehanneur desenhou medicamentos. Sim, isso mesmo: plulas e comprimidos. "Nem sempre a relao do paciente com o medicamento  boa, e eu acredito que um designer pode colaborar para melhorar isso mais do que um tcnico, um engenheiro ou mesmo um mdico", diz. Em seu site, os remdios so apresentados com uma expresso mais artstica do que farmacutica: "Objetos teraputicos". Igualmente teraputica  uma agradvel engenhoca desenvolvida a pedido do Centro de Tratamento Paliativo de um grande hospital de Paris  "a mais curiosa encomenda que j recebi", diz Lehanneur. Amanh  um Outro Dia (ele jura que no pescou o nome na famosa frase que encerra o clssico ...E o Vento Levou)  uma tela circular de LED que, seguindo previses meteorolgicas, reproduz o aspecto do cu no dia seguinte. Vrias dessas telas reconfortantes foram instaladas no hospital parisiense, em apartamentos que recebem pacientes em estado terminal. " o meu trabalho mais impressionista. Mistura cincia, tecnologia e um certo romantismo." 
     O romantismo reaparece em um reprodutor de MP3 que Lehanneur projetou para ser usado por uma dupla de amantes que desejem ouvir msica juntos. Com a forma de uma fogueira dourada, o aparelho foi batizado de O Poder do Amor. O poder da f tambm integra esse design humanstico: para a igreja de Saint-Hilaire, na cidade francesa de Melle, Lehanneur desenhou o altar e o plpito. A igreja  catlica, mas o design  ecumnico: "um espao para levar  meditao, independentemente da crena da pessoa que estiver ali", define o criador. 
     Influenciado sobretudo pelo trabalho do americano Richard Buckminster Fuller (1895-1983)  o inventor da estrutura conhecida como cpula geodsica, dentro da qual, em teoria, um grupo de pessoas poderia viver de forma autossuficiente, cultivando o prprio alimento , Lehanneur acredita que o melhor design se faz de maneira autnoma, sem maiores vnculos com grandes corporaes. Ele mantm um pequeno estdio em Paris, com apenas cinco assistentes: "S assim  possvel se reinventar o tempo todo". Paola Antonelli, curadora do MoMA, de Nova York, define Lehanneur como "o campeo intelectual da agilidade do design atual". E por um bom tempo esse campeo deve continuar invicto. 


7. VEJA RECOMENDA
CINEMA
A SORTE EM SUAS MOS (LA SUERTE EN TUS MANOS, ARGENTINA E ESPANHA, 2012. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
 Vencedor do Oscar em 2005  pela cano Al Otro Lado del Ro, do filme Dirios de Motocicleta , o msico uruguaio Jorge Drexler faz uma eficiente estreia como ator neste filme rodado em Buenos Aires. Ele  Uriel Cohen, argentino divorciado e pai de dois filhos pequenos. Encalhado em um emprego que detesta  dirige a empresa financeira deixada pelo pai , ele no consegue manter uma relao afetiva estvel, mas tem um caso compulsivo com a mesa de pquer. Entre uma "ficada" e outra ele se enrosca com Gloria (Valeria Bertuccelli), igualmente  procura de um amor e enfrentando fantasmas familiares  a recente morte do pai e as intruses de uma me controladora (Norma Aleandro). Gloria no  exatamente aquilo que Uriel procura em uma parceira, tampouco ele seria a escolha ideal dela. Mas os dois decidem mudar  de maneira um tanto atrapalhada  quando sentem que o amor  inevitvel. Drexler desenha uma espcie de Woody Allen portenho  Uriel tambm  judeu e neurtico  que seduz Gloria e a plateia aos poucos. Mesmo no estando no elenco, Ricardo Darn, ator indefectvel dos filmes argentinos, surge em cena, estampado em um pster de cinema.

DISCO 
RIGHT THOUGHTS, RIGHT WORDS, RIGHT ACTION, FRANZ FERDINAND (SONY)
 Para certas bandas, a repetio  mais uma qualidade do que um defeito.  o caso do quarteto escocs Franz Ferdinand, surgido h nove anos, com o disco homnimo e o hit Take Me Out. Desde ento, quase todo lanamento da banda encabeado pelo guitarrista, vocalista e crtico gastronmico (sim, ele chegou at a colaborar para o jornal britnico The Guardian) Alex Kapranos segue praticamente a mesma receita: um rock direto, danante, com guitarras agudas e um baixo mezzo danante, mezzo duro (cortesia de Bob Hardy). A receita sofreu uma pequena alterao em Tonight (2009), que tinha at um certo p no reggae. Mas est de volta em Right Thoughts, Right Words, Right Action. Aqui, Kapranos apresenta uma sucesso de canes que merecem em toda a extenso ser qualificadas de "pop"  Right Action, Fresh Strawberries e The Universe Expanded tm refros que pedem para ser cantados por um estdio lotado. Outro ponto alto do disco  Evil Eye, um funk duro, que uma publicao dedicada ao rock alternativo acertadamente comparou com o monstro de Frankenstein tentando "causar" na pista de dana.

LIVROS
REFLEXES DO GATO MURR,
DE E.T.A. HOFFMANN (TRADUO DE MARIA APARECIDA BARBOSA; ESTAO LIBERDADE; 434 PGINAS; 49 REAIS)
 Reflexes do Gato Murr foi escrito entre 1819 e 1822, quando o alemo E.T.A. Hoffmarm (1776-1822) estava perto do fim da vida, mas no auge da inventividade. O romance tem uma estrutura nica. Como explica uma "nota do editor", dois textos se misturaram na casa de impresso, e assim h dois livros num s, embaralhados: a vida do galante e erudito gato Murr, escrita por ele mesmo, e a vida do torturado compositor Johannes Kreisler  um alter ego do autor. Hoffmann plantava o fantstico no corao do que  banal, corriqueiro, e com esse mtodo ajudou a desbravar muitas vertentes da fico moderna e ganhou uma vasta descendncia, feita de autores como Edgar Allan Pe, Franz Kafka e Jorge Lus Borges. O seu texto mais famoso, O Homem de Areia, serviu para que Sigmund Freud desenvolvesse o conceito de "sinistro"  algo que nos causa medo por ser estranhamente familiar. Reflexes do Gato Murr explora outro efeito possvel do choque entre o normal e o extraordinrio: o humor. 

 ASSIM QUE VOC A PERDE, DE JUNOT DAZ (TRADUO DE FLAVIA ANDERSON; RECORD; 224 PGINAS; 29,90 REAIS)
 No so muito airosos os termos com que o dominicano Yunior se refere s mulheres de sua vida: "magrela", "gostosa" e "baranga velha" esto entre os poucos publicveis aqui. Tal como seu alter ego em  Assim que Voc a Perde, o escritor Junot Daz, de 44 anos,  um dominicano que vive desde a infncia nos Estados Unidos. Fala do universo de onde veio sem nenhuma edulcoraco: o machismo  moda latino-americana campeia, e o linguajar chulo  a regra. Mas, com sua pena sincera e bem-humorada. Daz transforma a baixaria em alta literatura. Depois de conquistar o Prmio Pulitzer com o romance A Fantstica Vida Breve de Oscar Wao, em 2008, ele apresenta nove contos interligados pelas recordaes familiares e amorosas do imigrante-protagonista. Yunior  um cafajeste compulsivo. Eis uma frase que denuncia seu carter: "No d para ficar transando com branquelas a vida inteira". Mesmo assim, ele  capaz de encantar o leitor. E at de comov-lo  como confirma o conto em que o personagem narra as peripcias sexuais do irmo que luta contra o cncer.

DVD
NASHVILLE (ESTADOS UNIDOS, 1975; PARAMOUNT; VENDIDO COM EXCLUSIVIDADE NA LIVRARIA CULTURA)
 Nashville, no estado do Tennessee,  a capital da msica country. Neste que  um dos melhores filmes de Robert Altman, a cidade tambm serve como uma sntese dos Estados Unidos nos anos que se seguiram ao escndalo de Watergate. Em uma frmula que continuaria usando depois (em Short Cuts, por exemplo), Altman acompanha vrios personagens ao longo dos cinco dias que precedem o comcio de um candidato a presidente. A diva country adoentada (Ronee Blakley), o cantor veterano com ambies polticas (Henry Gibson), aspirantes ao estrelato (Barbara Harris, Gwen Welles), uma suposta reprter da BBC que se deslumbra com o mundo da msica (Geraldine Chaplin) e um jovem artista com talento para seduo (Keith Carradine) esto entre os personagens.  poca do lanamento do filme, a comunidade country torceu o nariz para o que julgou uma viso caricata desse mundo. Mas Nashville , at hoje, habitada pelos tipos brilhantemente retratados por Altman. 


8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA 
5. Uma Longa Jornada. Nicholas Sparks. ARQUEIRO
6. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
7. Cidade dos Ossos. Cassandra Clare. INTRNSECA
8. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
9. O Ladro de Raios. Rick Riordan. INTRNSECA
10.   A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA 

NO FICO
1. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Lenadro Narloch. LEYA BRASIL 
2. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
3. Getlio 1930-1945. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS
4. Cincia e F. Bispo Rodovalho. RECORD 
5. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM
6. Para Sempre. Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
7. Um Gato de Rua Chamado Bob.  James Bowen. NOVO CONCEITO 
8. Holocausto Brasileiro. Daniela Arbex. GERAO EDITORIAL
9. Casagrande e seus demnios. Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO 
10. Dirceu  A Biografia.  Otvio Cabral. RECORD 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE
5. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
6. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
7. Receitas de Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
8. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE
9. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
10. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE


9. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BATATA QUENTE
     A nova fase do julgamento do mensalo apresenta ao Supremo Tribunal Federal dois desafios, um novo e um antigo. O novo  como lidar com sua nova composio, agora que tem dois novos integrantes. O antigo  conseguir chegar ao fim do julgamento num prazo razovel. As duas questes transcendem o prprio julgamento, por mais importante que ele seja. Dizem respeito  capacidade da corte de se desincumbir a contento do alto papel que lhe cabe e  imagem da instituio. A sesso da ltima quarta-feira, a primeira depois do bate-boca entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, mostrou que os ministros esto conscientes da batata quente representada pelo duplo desafio. O bate-boca teve isso de bom. Provocou uma reflexo da corte sobre si mesma. A sesso, em paralelo ao julgamento dos embargos declaratrios apresentados pelos rus, serviu para que os dois temas se apresentassem, de forma mais ou menos explcita.  
     Quis o acaso que, no meio do julgamento, dois ministros se aposentassem. Ao fim, com os rus julgados e suas penas definidas, o plenrio estava reduzido a nove membros. Mas dois novos foram nomeados ainda a tempo de participar da fase dos recursos. Por enquanto, ao se debruarem sobre os embargos declaratrios, que visam a aclarar possveis obscuridades no acrdo, os ministros enfrentam a parte mais fcil. Problema que se delineia no horizonte so os chamados embargos infringentes, que permitem abrir novo julgamento no caso de votaes apertadas. Os ministros tero de decidir preliminarmente se cabe esse tipo de embargo, uma vez que h divergncia entre o regimento do Supremo e a legislao, mas pior  o fantasma que se esconde atrs dessa deciso: o fato de, aceitos tais embargos, os novos julgamentos se realizarem com outro time de juzes. 
     Mudanas na composio do Supremo em momentos delicados invocam infelizes memrias histricas. Floriano Peixoto deixou de nomear ministros para no dar quorum ao julgamento de  habeas corpus dos adversrios, Getlio diminuiu e os militares aumentaram o nmero de ministros ao sabor de suas convenincias, e os militares ainda faziam mais: cassavam os indesejados. O.k., o.k., os citados foram todos ditadores e estamos numa democracia, com as instituies livres como jamais foram. Tampouco h o menor indcio de que a presidente Dilma tenha escolhido os novos ministros por eventuais inclinaes favorveis  reviso do julgamento, e muito menos que os ministros, tivesse sido esse o caso, aceitassem tal papel. Sobra o problema concreto e constrangedor de que, na hiptese de o julgamento vir a ser alterado, o ser muito provavelmente em funo dos novos ministros. Mesmo dando de barato a democracia, a legalidade, a lisura, a independncia, os livres convencimentos e as conscincias limpas, o julgamento ter um sabor, meio  republiqueta, de virada de mesa. 
     A questo da acolhida ou no dos embargos infringentes est ligada  segunda batata quente que aflige o Supremo, a de arrastarem-se os trabalhos ainda mais do que j se arrastaram. Nunca  demais lembrar que este julgamento comeou sete anos depois dos fatos que lhe deram ensejo, arrastou-se por mais de quatro meses, precisou de mais quatro para que fosse publicado o acrdo, e s agora, outros quatro meses passados, avanou  fase de apreciao dos recursos.  muito,  escandaloso,  subdesenvolvido e  desanimador. "Temos pressa de qu?", perguntou Lewandowski, no dia do bate-boca, diante da  insistncia de Joaquim Barbosa por celeridade. No  caso de ter pressa.  de fugir aos truques protelatrios, s discusses vs, s exuberncias retricas  e ao vexame de ir-se o julgamento por sabe-se l mais quantos meses, talvez se prolongando pelo prximo ano, e at avanando 2014 adentro a ponto de entrar em competio com a Copa do Mundo e a campanha presidencial. Temos de terminar com a prtica de que o devido processo legal  aquele que no termina", disse o ministro Lus Roberto Barroso, o mais novo dos nomeados, na ltima quarta-feira.  bom sinal que justamente ele, critico explcito de certas decises do julgamento, tenha essa conscincia. Mas vem a o captulo das infringncias, e l vamos ns  at quando? 
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To civilizatria quanto um bom desfecho no Supremo  a deciso da prefeitura do Rio de Janeiro de punir quem joga lixo na rua. Os primeiros multados foram fumantes. Se a campanha continuar, muitos outros sero. Fumantes tm a tendncia de achar que guimba de cigarro no  lixo.


